arquivo > Fevereiro de 2013

Dia Vinte e Oito do Dois

Garrano / Castro Laboreiro 2013

(conclusão da nota de Vinte e sete do dois)

Missão cumprida. Chegar a 28 de Fevereiro, após dez dias de ausência. A minha carreira como candidato-actor, como dramaturgo e como encenador, sofreu na campanha impossível de 2005 o desacontecimento do teatro que não se representou. Resta na memória envolta em algodão em rama e o retrato do Teatro de Bolso do Dramático de Rio Tinto, demasiado vazio para a sua vocação.

 

Dia Vinte e Sete do Dois

Banco de dados fotográficos

(Continuação da nota Vinte e seis do dois)

Há sete anos [agora oito], nas autárquicas de 2005, em que me candidatei à Assembleia de Freguesia de Rio Tinto, encabeçando uma lista que viria a eleger dois deputados, cheguei a escrever um monólogo que queria representar nesse teatro [o do ∂ramático de Rio Tinto] como parte integrante da própria campanha eleitoral. 

Foi precisamente isto que não aconteceu, apesar de ter escrito o monólogo e de ter chegado a apalavrar o teatro.

(concluiu na nota de Vinte e oito do dois)

Dia vinte e seis do dois

postal com uma sardinha

(continuação da nota Vinte e cinco do dois)

Numa outra crónica, talvez a segunda deste projecto, disse que tinha visitado num exercício de evocação de algo que não chegou a acontecer, o Dramático de Rio Tinto, associação que possui um teatro de bolso com capacidade para 170 espectadores, desenhado, nos finais dos anos 60 do século passado, pelo arquitecto António Lobão Vital, companheiro de Virgínia Moura. 

O que não chegou a acontecer teve lugar em 2005, ano de eleições autárquicas como o presente ano de 2013, mas a sua revelação neste espaço terá de aguarda a  próxima nota.

(continua na nota de Vinte e sete do dois)

Dia vinte e cinco do dois

Instituto de Medicina Legal de Coimbra

(continuação da nota Vinte e quatro do dois)

A noite [do espectáculo de Nana de Vasconcelos no Porto] abriu com um berimbau inesquecível que, só por si, valeu o dia inteiro e valeu a própria noite. Um berimbau como aquele que acompanha Vinicius. “Quem de dentro de si não sai // Vai morrer sem amar ninguém”. Há momentos que deviam prolongar-se para sempre e pessoas que deviam ser eternas.

(continua na nota Vinte e seis do dois

Dia vinte e quatro do dois

Solidão (2013)

(continuação da nota Dia vinte e três do dois)

Numa das crónicas que enviei para aquela publicação evoquei um espectáculo memorável a que assisti no Porto, da última vez que o meu filho mais velho, o Pedro, me visitou. Foi uma evocação muito virada para os sentidos, como às vezes queremos que aconteça, e começava da forma que se segue.

Há dias, na Sala 2 da Casa da Música, num Porto aqui tão perto, fui levado para o Amazonas pelo percussionista Naná de Vasconcelos. Nem Lui Coimbra, que também participou no espectáculo, enfrentou uma chuva assim, a cair no rio. Quente como todas as chuvas tropicais e tudo isto só com vozes e a bater palmas.

(continua na nota Vinte e cinco do dois)

Dia vinte e três do dois

Almada, Edificio das Matemáticas em Coimbra

(Continuação da nota Vinte e dois do dois)

Tenho vindo a aproveitar este hiato de dez dias de ausência para recuperar textos que vinha escrevendo num jornal recentemente criado e recentemente encerrado, provisoriamente. Uma aventura jornalística séria que a crise e a crise da Imprensa escrita teimam em inviabilizar. Um esforço de profissionais que muito estimo e que tentam criar os postos de trabalho que lhe foram sonegados por empresas jornalísticas com mais de cem anos de existência. Esta mais recente tentativa amanheceu semanário, mas rapidamente teve de alargar o intervalo de publicação (primeiro, semana sim semana não, e depois mês a mês) até à suspensão provisória.

(Continua na nota Vinte e quatro do dois)

Dia vinte e dois do dois

dor de cabeça

(Continuação da nota Dia vinte e um do dois)

Ainda tenho na memória uma frase marcante que li nessa quinta-feira - “avalia-se um homem pela natureza dos factos que o aborrecem”. Estava pichada numa das paredes da improvisada sala de ensaios do TEUC. Fiquei a saber, nessa quinta-feira, que o grupo tinha de ensaiar naquele espaço emprestado pelo facto da Associação Académica, onde o TEUC tinha instalações próprias, estar encerrada por represálias políticas.

(continua na próxima nota, Vinte e três do dois

Dia vinte e um do dois

Pinóquia / 2013

(Continuação do texto Dia Vinte do Dois)

Eu gosto de quintas-feiras. Hoje, dia 28 de Fevereiro é uma quinta, como o dia 21 de Fevereiro a que deveria corresponder esta nota. Foi também a uma quinta-feira, mais precisamente a 4 de Novembro de 1971, que me inscrevi no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC). Andava por lá, com os meus dezassete anos, sem conhecer ninguém e sem aulas, quando vi numa porta que dava para o claustro do edifício dos Gerais, onde funcionava, como ainda funciona, os Direitos, um imperativo irresistível - “TEUC, inscreve-te”.

(Continua na nota Vinte e Dois do Dois

Dia vinte do dois

Sé Nova Coimbra / sombras 2013

(continuação do texto datado de 19 de Fevereiro)

Hoje é quinta-feira, dia 28 de Fevereiro, conforme figura na datação expressa, mas estas reflexões vão ser publicadas sob o título "Dia Vinte do Dois", a segunda data em falta desde que interrompi esta disciplina da Escrita Clara, a 18 de Feverreiro p.p.. Como prometido e até chegar ao dia dia de hoje, vou escrever ao correr do teclado, em suaves prestações de meia dúzia de linhas por fascículo, como vinha fazendo desde 6 de Novembro de 2012, se a memória não me falha. Encadeando estes escritos uns nos outros, como uma escrita pela escrita.

(continua no próximo fascículo, Vinte e Um do Dois)

Não escrevo há dez dias

Escultura na Fundação do Escultor José Rodrigues / Porto

Hoje é quinta-feira, dia 28 de Fevereiro, embora a data que figura neste escrito seja a de 19 de Fevereiro, que foi uma terça~feira. Já não vinha a esta Escrita Clara desde 18 de Fevereiro, por razões que pouco interessarão aos meus, poucos, leitores. Agora, o que interessa, é encontrar uma desculpa, uma solução para esta falha de dez dias... Tinha prometido alimentar diariamente este espaço mas, nesta última semana, uma semana de dez dias, a promessa não pode ser cumprida. Tenho a desculpa de que em matéria de promessas por cumprir o exemplo, em Portugal, é dado de cima... Pronto está justificado o atraso... E para compensar vou escrever ao correr do teclado, mas dividindo os escritos por episódios a preencher os dias em falta.

(continua no próximo escrito que deveria ser a vinte do dois)

Será a Arte o ópio dos ricos?

Madrid, Arco 2011 / JR

Durante uma das últimas edições da ARCO, a feira de arte contemporânea de Madrid, li um artigo do El País (que recortei e colei num dos meus moleskines) cujo título garantia que a Arte é o ópio dos ricos. Na verdade,  mesmo sabendo que o recortei e colei, não recordo se o li ou se apenas li o título. O título ficou-me de memória, mas desconheço que tese ensaística conteria o artigo, o que é forte indício de não o ter lido. Talvez tenha ficado preso ao artigo pela sugestão de uma outra máxima - a que diz que a Religião é o ópio do povo. Ou talvezz não. Sabendo, como sei há muito, que os títulos podem ser muito enganadores.

Um universo privilegiado de cidadanias

E cheirava a mar / JR 2011

Ontem fui ao teatro, mais precisamente ao Teatrão, em Coimbra, onde nunca tinha entrado. Fui ver um trabalho, "Corre mãe! Corre", concebido pelos profissionais do Leirena Teatro, de Leiria, e apresentado no Teatrão a encerrar um míni festival de teatro de laboratório subordinado ao tema "Teatro e Comunidade". A proposta, com soluções cénicas e dramatúrgicas muito bem conseguidas, integra canções populares, poesia e até escultura popular, em registros sérios e divertidos, num texto realçado por uma grande entrega dos quatro actores. Acresce que reencontrei no público o Deolindo Leal Pessoa e o António Pedro Pita, dois velhos companheiros de aventuras do teatro e de outros palcos que já não via há muito. Vale sempre a pena trocar o falso conforto de uma sala com TV pelo calor de uma sala de espectáculos, local privilegiado de cidadanias.

Pobres dos pobres dos novos Jó

É sempre difícil transpor qualquer porta do paraíso. Foto JR / Santiago de Compostela

Os procuradores da República, anteriormente designados como delegados do Procurador da República, eram considerados, nas comarcas onde exerciam o cargo, os pais dos pobres, expressão plagiada do bíblico Livro de Jó ("Eu era o pai dos pobres e interessava-me pela defesa de todos, incluindo desconhecidos", 29.16). Hoje, muitos deles, em especial os mais jovens licenciados em Direito que olham para esta magistratura como uma saída profissional e recebem licença para exercer o ofício antes de aprender que o juiz que só sabe de leis nem de leis  sabe, chegam a oferecer, por decisões de mau senso e até por abuso de poder, não proteção mas prejuízo e, o que é pior, impunemente.

O sítio da Universidade

Pegada no Alvor / 2012

Coimbra não é só uma cidade onde passamos alguns anos da nossa vida mantendo sempre, debaixo da cama, um saco de viagem pronto para a possibilidade de queremos partir. Coimbra é, como dizia Orlando de Carvalho, um universitário de referência nas ciências jurídicas e um dos raros sábios da Renascença que chegou ao nosso tempo, o sítio da Universidade portuguesa e não a Universidade das Beiras. Sente-se esta diferença quando voltamos a Coimbra para testemunhar que esta cidade e esta Universidade pertencem,  em primeira linha, à geração que tem 20 anos nesse momento. Se percebermos esta magia então encontraremos o segredo da eterna juventude e saberemos identificar a nossa própria marca, aceitando com naturalidade essa ideia do sítio da Universidade, como um dos segredos de Coimbra. 

Há 60 anos, não havia Dia de Namorados

Dia de Festa na aldeia / Foto JR

Se o meu pai ainda fosse vivo, como a minha mãe, que anda nos 94 anos, celebrariam hoje 60 anos de casados. A cerimónia do casamento, celebrada catolicamente, por um irmão do meu pai, ocorreu no Santuário de Fátima quando o dia 14 de Fevereiro ainda não era, pelo menos universalmente, Dia dos Namorados, sendo apenas reconhecido como Dia de S. Valentim para os católicos mais letrados e mais atentos ao calendário dos santos, um conjunto seguramente muito escasso de portugueses no Portugal de 1953. Mais um exemplo das grandes mudanças a que a nossa geração assistiu e assiste.

Uma lição inesperada de jornalismo

A velha telefonia / Foto Tiago Roldão

Hoje, fiquei preso a uma entrevista ao jornalista e crítico de cinema Jorge Leitão Ramos que  a Antena 1 transmitiu a pretexto da publicação do livro  “Fernando Lopes. Um Rapaz de Lisboa”, uma biografia do cineasta concebida e editada por Leitão Ramos. Disse ele que chegou a imaginar este livro baseado numa longa entrevista a Fernando Lopes, mas depois de a ter recolhido verificou que as respostas do entrevistado, à data da recolha já um pouco doente, não correspondiam, em rigor, ao pensamento do próprio cineasta, razão mais do que suficiente para que Jorge Leitão Ramos não as utilizasse. Um respeito pelo entrevistado que é uma verdadeira lição de jornalismo.

Vantagens da fuga às portagens

Ponte Velha do Marnel, Lamas do Vouga, Agueda / Foto JR 2013

Agora que andamos todos (ou quase todos ou apenas muitos de nós) a fugir das auto-estradas e das antigas SCUTs, as estradas sem custos para os utilizadores que passaram a ter custos para os utilizadores, agora podemos parar na estrada para, por exemplo, ver cantos e recantos que escapavam à nossa vista quando andávamos em loucas correrias pela A1 e por outras AA que por aí ainda há. Andamos mais devagar, para poupar combustível, e até nos lembramos que as limitações de velocidade nas auto-estradas foram, in illo tempore, determinadas pela necessidade que o país então tinha de diminuir a factura do petróleo. Agora não é só o país, somos também nós. Que nos seja possível tirar algum partido disto. Enquanto é permitido parar, sem pagar, para olhar e ver certos cantos, certos recantos, certos encantos.

Erradicar a escravatura para lá da lei

Palácio da Pena, colecção Património Revisitado (pela mais famosa bebida americana)

Hoje, dia em que fui ver o retrato que Steven Spielberg idealiza como sendo o de Abraham Lincoln (1809-1865), o presidente dos Estados Unidos que promoveu a 13ª emenda a consagrar na Constituição dos EUA a abolição da escravatura, fui surpreendido pela divulgação, no Conselho da Europa, de um relatório sobre tráfico de seres humanos que refere Portugal como um país onde há uma expressão significativa de prostituição forçada e uma ainda mais surpreendente prática de escravatura, que atinge mulheres e homens entre imigrantes do Leste Europeu, de África e da América do Sul. E foi Portugal um dos primeiros países a abolir a escravatura.

Um domingo, a Norte, gordo de chuvas

Fim de festa no ensaio carnavalesco da sexta-feira

Chuva em Domingo de Carnaval, o domingo dito gordo, é de uma injustiça sem igual. Quando esta vida são dois dias e o Carnaval três, um dos quais confiscado pela Troika, chover na tarde do domingo ainda torna mais triste e insuportável a austeridade que nos é imposta por quem nos rouba o próprio Carnaval. O S. Pedro, que dizem ser quem manda nesta coisa do tempo, está seguramente feito com a União Europeia, com o Banco Central Europeu e com o Fundo Monetário Internacional, três respeitáveis instituições muito empenhadas em acabar com o Carnaval, pelo menos na Grécia, na Irlanda e em Portugal, na convicção de que esse extermínio da folia irá relançar a Economia. Tem graça.

O velho que aguarelava desenhos a lápis

"Sinais isolados, meios isolados, entre outros acidentes". Marco Fidalgo na FEJR

Encomendo carimbos para "assinar" colagens de recortes de jornais e de outras coisas mais. Um desses carimbos - o meu preferido -  até imprime a frase "Recortes de jornais e outras coisas mais", mas o mais recente, embora ainda pouco divulgado, é uma espécie de assinatura barroca - "o velho que aguarelava desenhos a lápis". Não sei onde vou buscar estas expressões mas, há dias, percebi (e até registei esta descoberta) que há palavras que passam a noite acordadas na minha cabeça, legendando o meu sono agitado. E se as uso, quase que sinto estar a cometer uma espécie de contrafação de palavras. Tabucchi conta, num conto, como certas histórias são alimentadas por frases soltas que ele recolhia de anónimos com quem se cruzava na rua ou noutros locais públicos. Gostava de ser assim. 

A última sexta-feira antes do Carnaval

"Sinais isolados, meios isolados, entre outros acidentes", Marco Fidalgo na FEJR

O 8 de Fevereiro volta a ser, este ano, a última sexta-feira antes do Carnaval, como em 2002. Faz hoje onze anos que morreu o meu pai, mas só hoje percebi que ele já não estava entre nós quando fui, como jornalista, ao Campeonato do Mundo de Futebol que se realizou em 2002 na Coreia e no Japão. Ele teria ficado muito feliz se tivesse podido acompanhar esse meu trabalho, lendo o jornal para onde eu trabalhava. Mas infelizmente, mesmo que tivesse sobrevivido a esse Campeonato do Mundo não teria conseguido acompanhar o meu trabalho pois estava acamado em minha casa sobrevivendo, sem qualidade de vida, física e intelectual, às sequelas de um acidente vascular cerebral ocorrido em Novembro de 1995. 

Quase tudo o que vemos é um espelho

Cristo do Canto e Contracanto / JR 2013

Hoje visitei a exposição que Marco Fidalgo levou à Fundação Escultor José Rodrigues (Fabrica Social, Porto) sob o título "Sinais isolados, meios isolados, entre outros acidentes". Vantagens de estar profissionalmente domiciliado na Fábrica Social, numa solução proporcionada pela VWO escritórios virtuais, ocupando aí um lugar, em regime de partilha de espaço, ou, na expressão em Inglês, em regime de coworking. A exposição de Marco Fidalgo é um inesperado olhar sobre as cidades e sobre as cidadanias , num enorme e virtual espelho (numa ou noutra obra, real) que reflete uma incomodidade nem sempre assumida e que comprova a ideia de que tudo, ou quase tudo,  o que vemos acaba sempre a funcionar como um espelho.

Moldar o barro e dar vida a um Cristo

Fábrica Social Porto, Galeria de Grafitis

Hoje meti as mãos no barro. Aconteceu na Oficina do Escultor Mestre José Rodrigues, na Fábrica Social, durante uma visita de estudo de alunos de uma escola do Porto. Recebidos por assistentes do Serviço Educativo da Fundação Escultor José Rodrigues, os alunos terminam a visita "experimentando" o barro e tentando "esquissar" uma pequena peça tridimensional. Infiltrado no grupo, tentei-me a fazer o mesmo e ousei criar um Cristo, o que é quase um pecado tendo em conta que já ando nos sessenta anos e que esta foi a primeira vez que experimentei moldar barro. 

Privilégios de quem frequenta galerias

Aparição de uma anja / Fundação Escultor José Rodrigues

Estou a instalar-me na Fábrica Social, no Porto, pertença da Fundação Escultor José Rodrigues, local para onde transferi a minha empresa em regime de coworking, ou seja, tenho uma secretária num espaço partilhado com profissionais de outras empresas, uma solução pouco dispendiosa e muito agradável, especialmente para quem trabalha sozinho. Acresce a natural magia do lugar - hoje, por exemplo, almocei numa mesa (de um restaurante ali sediado) onde também estava o escultor José Rodrigues que, no final, fez questão de mostrar-me parte da sua própria colecção de desenhos e pinturas de grandes mestres. Um privilégio raro que na minha experiência só é comparável a uma outra visita a uma exposição em Paris, em 1988, guiada pela própria artista, Maria Helena Vieira da Silva, que então recebia visitantes muito especiais - Miterrand, presidente da França, e Soares, presidente de Portugal.

Um sonho que até escapa aos ricos

Doze pastilhas e um papel livre de ácidos

Se fosse rico ia amanhã a Londres, ao leilão de arte moderna impressionista da Sotheby's, tentar arrematar um guache de Egon Schiele - "Lovers (self portrait  with Wally)". Pensando melhor, se fosse mesmo muito rico não precisava de ir a Londres para arrematar este trabalho de Schiele - mandava alguém licitar a obra. Claro que cobriria, ou mandaria cobrir, todas as demais ofertas. E pagaria os impostos que a Troika, plausivelmente, iria exigir fossem aplicados a esta aquisição. Tudo isto não seria nada se comparado ao gozo que teria se conseguisse essa ou outra obra de Egon Schiele através de um audacioso e bem sucedido assalto a um museu ou à própria Sotheby's. Um sonho que não está ao alcance de um qualquer multimilionário

Tempo das crónicas sem palavras

Palácio das Necessidades / Lisboa 2013

A cor da terra, quando a terra parece ouro velho, é impossível de imitar. E que perfume tem quando chove ? Há palavras com sabores, cheiros, texturas que podem ouvir-se e ver-se. São essas palavras que começam a falhar, neste tempo sem cor nem alegria, quando, impotentes para alinhar as palavras que mais apreciamos, sentimos vontade de desistir. Ainda há dias me queixava de não saber escrever crónicas sem palavras, a condizer com os retratos a preto e branco deste país, novamente triste e pátria de múltiplos exílios. Gostava de ter uma escrita de tal forma clara que fosse reconhecida pela cor ou pelo tacto. Mas também não é facil, como tudo o resto.

Ver navios do terraço da Fábrica Social

Lisboa 2013, interior de edifício de escritórios na Avenida da Liberdade

Vou fingir que o terraço da Fábrica Social (Fundação José Rodrigues) no centro do Porto, para onde mudei a localização do meu posto de trabalho, é o lispoeta MIradouro do Alto de Santa Catarina, de onde se avista a baixa pombalina, o Tejo e o mar. Do terraço da Fábrica Social, embora num ângulo aposto ao de quem vem e atravessa o rio (o Douro) junto à Serra do Pilar, vejo também esse velho casario que sei estender-se até ao mar, como no canto sentido deste Porto que Carlos Tê e Rui Veloso há muito nos ofereceram. Sou cada vez mais, portuense de alma e coração com naturalidade reconhecida, um correspondente em Lisboa que vive no Porto. Real e virtualmente.

Xenu para ser chez nous

Janela do DIAP com vista para a bandeira

Xenu é provavelmente o restaurante de Lisboa que mais frequento. Fica na Rua Duque de Palmela bem perto de um outro restaurante - o Pabe - muito famoso pela clientela vip que ajuda a torná-lo famoso. Almocei no Xenu na terça-feira passada. Lembro-me que o vinho escolhido foi um Esporão, branco. Uma reserva jovem. Almocei ao lado de Ana S., naquele que poderá vir a ser o meu último almoço de trabalho  com a presença dela. A Ana, como foi tornado público, vai emigrar para o Norte da Europa, mas nem o facto de estar a testemunhar um exílio voluntário fez com que descobrisse o que hoje descobri sem ter lá almoçado, apesar de ter passado o dia em Lisboa - que Xenu pretende ter a sonoridade de Chez Nous.