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Naquele parque de camiões TIR do restaurante

Uma linha numa montagem de um pesado / JR 2017

Na instalação sonora daquele restaurante da route 66, sempre cheio de camionistas de longo curso, ouviu-se um aviso inesperado : "agradece-se ao senhor motorista que acabou de estacionar As Meninas de Avinhão do Picasso o favor de encostar mais aos Chinelos da Joana de Vasconcelos. De repente, eu que chegara com o meu auto-retrato sem cabeça, lembrei-me que a moda eram as reproduções de quadros seleccionados estampadas nas paredes exteriores dos camiões,  a transformar os parques de estacionamento para pesados dos restaurantes da beira da estrada em verdadeiros museus gigantescos. Foi então que se reacendeu a minha perseguição ao Grito de Edvard Munch - "O Grito de Munch? Esteve aqui a almoçar mas já seguiu viagem. Dentro de quinze dias volta cá".

Um campo depois da colheita para deleite do corpo

Culturgest Porto (instalação de Alberto Carneiro) foto /JR 2017

Tendo sido muito marcado, enquanto público com vontade de saber fruir Arte, por uma instalação de Alberto Carneiro, instalação (Canavial) que vi pela primeira vez em Coimbra, no início dos anos 70 do século passado, ainda antes do 25 de Abril de 1974, foi com redobrado entusiasmo que entrei hoje, dia 3 de Setembro de 2017, numa outra obra urbana do autor, para utilizar uma expressão de Delfim Sardo, que está instalada, até 1 de Outubro, na Culturgest Porto. Trata-se de "um campo depois da colheita para deleite estético do nosso corpo" e é  uma instalação feita de medas de centeio, semeado no Outono de 2016 para a própria exposição. Com um perfume raro e a sensação rara do que é pisar o tapete de palhas que cobre um campo depois de uma colheita. 

Espécies de "fake news" dos bons velhos tempos

cores falsas / foto JR 2010, manipulada em 2017

Quantos vezes e em quantos jornais foi possível ler, com honras de manchete, em dias 25 de Dezembro, a novidade, de todos conhecida, a assegurar que o dia 25 de Dezembro é o Dia de Natal. Este fenómeno noticioso acontecia também no Carnaval, em certas peregrinações muito concorridas e noutras efemérides menos celebradas. Mas também havia notícias fabricadas ("fake news") e até quem se gabava  de ter sido, em tempos que esse gabarola considerava velhos e bons,  enviado a Fátima para cobrir uma das peregrinações mais concorridas, tendo assinado uma reportagem, "de fazer chorar as pedrinhas da calçada", sem sair da margem esquerda do Douro, escondido em casa de amigos, a jogar à sueca e a ouvir as cerimónias pela fidelíssima Rádio Renascença, incapaz de um pecado desta Natureza, quase mortal. Claro que aquele puro exemplar da chamada velha guarda não prescindiu das chamadas ajudas de custo, inerentes à deslocação, como também gostava de gabar-se. Também o terrível naufrágio das traineiras, na madrugada de 2 de Dezembro de 1947, com 152 pescadores mortos no afundamento de quatro traineiras, entre a Aguda e o Senhor da Pedra, mereceu, na Imprensa escrita da época, relatos com transcrições em discurso directo dos últimos momentos vividos em traineiras que se afundaram sem sobreviventes.