Bate, bate o pé, duas vezes em pontas e uma vez no chão

Bate, bate o pé, duas vezes em pontas e uma vez no chão JR, técnica mista

Em sonhos, danço como dançam
os melhores dançarinos,
borboletando este coração que bate,
bate o pé, duas vezes em pontas e uma vez no chão.

Em sonhos, canto como cantam
as vozes que inquietam nossas emoções,
lavando minha alma no vinho especial
que faz o céu da boca trinar em cristal.

Em sonhos, toco na tocata,
delicata mente,
sabendo que corda posso ‘inda esticar,
para ter prazer sem nunca o negar. 

Júlio Roldão, Coimbra 05.11.2016

Numa barca de gáveas partidas

contra luz no Atlântico / JR 2016

Passageiro clandestino no Navio Escola Sagres, que saiu ontem de Lisboa para chegar ao Rio de Janeiro antes da cerimónia de abertura dos jogos olímpicos de 2016, quase que sou apanhado pela velajadora Joana Prates, que viaja com todas as autorizações,  ao ficar a olhar, embasbacado, para as 10 velas redondas e as 13 velas latinas desta jóia da Armada Portuguesa. Felizmente apercebi-me da situação e escondi-me a ler um dos romances que trouxe para a travessia, mais precisamente um dos vários sobre a vida de Horatio Hornblower, o oficial da Armada de Nelson,  personagem recriado pelo meu colega e grande autor de biografias e romances históricos, C.S Forester 

Regresso mágico à Paris de Amadeo

Paris, oitavo bairro, Foto JR

É bem verdade que um dos prazeres das viagens é poder voltar aos lugares que já visitamos seduzidos pelo olhar mágico de outros visitantes. Esta sedução funciona melhor se já gostamos de quem nos seduz, como acontece, no meu caso, relativamente a Alexandra Lucas Coelho, de cuja escrita sou leitor e que hoje,  pelo que ela escreveu, no jornal Público, sobre duas exposições, a de Amadeo, no Grand Palais, e a dos Jardins d’Orient, no Instituto do Mundo Árabe, levou-me de volta a Paris. Como disse Marcel Proust, "le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages mais à voir avec de nouveaux yeux." 

Uma âncora para a nossa pouca sorte

Tocha 1994 / Foto JR

Os nossos barcos já só servem, e pouco, para uma pesca de sobrevivência crescentemente reprimida. Já não há comboios especiais de emigrantes provenientes de Paris, nem no Natal. Tampouco acreditamos na bondade de fazer vingar a "revolução moral" a que aludiu Barack Obama quando, em visita a Hiroshima como Presidente dos Estados Unidos, homenageou as vítimas da guerra. Não será inédito vermos falhar  a construção de um "homem novo". Temos de viajar para além de nós, como cantou Luís Veiga Leitão ao fugir da cela a pedalar na bicicleta que outro preso desenhara na parede.  Além de escassearem, no jornalismo, âncoras a que nos possamos agarrar, como às vezes ainda fazemos, pelo menos às sextas-feiras, pelas nove da noite.

Escolher, em Liberdade, o éle do lucro

Uma questão de escolha em Liberdade / JR 2016

Uma das vantagens da Liberdade é a de podermos pedir o que quisermos. Podemos reclamar subsídios que nos garantam o que julgamos ser certos privilégios - como estudar numa escola privada paga pelo Estado - e podemos fazê-lo até em manifestações de rua bem identificadas pela cor dominante das vestes dos manifestantes, por exemplo o amarelo. Podemos fazer isto tudo, mas temos de aceitar que o Governo, em nome do Estado, obrigado a manter e alargar a Escola Pública a toda a população mesmo podendo, em situações justificáveis pela inexistência de oferta pública, remeter alunos para instituições privadas de ensino, tente superar esta contrariedade.

Facebook, com éfe de Futebol e Fado

Gosto / JR 2016

Facebook escreve-se com éfe de Futebol e de Fado. O mesmo éfe com que se escreve fome, fama e Fátima. Éfe de favorecimento, de facilidade, de felicidade ou de frequência. Aquele mesmo éfe do "éfe éme estéreo", ou seja da frequência modelada em estereofonia, uma melhoria nas emissões de rádio, regularmente apregoada na própria rádio com um pregão que aos ouvidos de um grande amigo meu soou, durante anos, com um incompreensível "éfe é mistério", em vez do "éfe éme estéreo". É preciso saber ouvir. Confusões destas há muitas. Ainda há dias, alguém me perguntou a razão pela qual a RTP voltou a dizer que "Angola é nossa", confundindo o pregão que anuncia a exclusividade das transmissões de Futebol do Campeonato da Europa - "A bola é nossa".

Os peixes também pensam e sentem

Peixe que pensa e sente JR

Jonathan Balcombe assina hoje no International New York Times um artigo de opinião onde diz que os peixes pensam e sentem. Refere uma experiência com mantas gigantes que mostrou que elas são capazes de se reconhecerem num espelho. Pensar que os peixes também podem sentir e pensar é uma ideia boa mas também estranha e até potencialmente perturbadora especialmente para todos aqueles, entre os quais me incluo, que comem peixe. Espero nunca ter comido um desses peixes que tem a capacidade de se olhar a um espelho com alguma vaidade.