Na pandemia da COVID-19

Ponte 2, Júlio Roldão, 2019, técnica mista (25,5X10X2,5 cm)

Carta para o M.A. Pina

Agora nem isso,
meu querido Pina.
Nem as funerárias
conseguem intrometer-se
(Atlética Funerária incluída)
nesse espaço que separa
a vida da morte.
Devias estar por cá
para registar
poeticamente
este outro tempo de chumbo.
Muito mais pesado.

Releio o teu Farewell Happy Fields! (...)
"(Sem ironia, o meu coração teme a ironia
quase tanto quanto a perfeição;

e sem melancolia:
estávamos a precisar de solidão,
de silêncio, de geometria,
e as nossas lágrimas de uma grande razão)."
(...)

Só tenho rascunhos
e alguns discursos
- vendidos ao desbarato -
de muitas encarnações
que jamais vivi.

Mais a leitura poética
de alguns versos escolhidos.
E também esse jornal
com todas as más notícias
(a mostrar o fantasma de Milão
na primeira página
e as cinzas dos mortos)
e outras desesperanças.

Como começar de novo?

Júlio Roldão
06.04.2020

Regresso sempre no Outono

técnica mista sobre papel de jornal

Regresso sempre no Outono, pela Feira do Livro do Porto. É o cenário ideal para uma escrita clara. Eu que já coleccionei catálogos das peças de teatro a que assistia (em regra publicações muito cuidadas que escapavam à censura e publicavam textos intelectualmente sérios e bem elaborados impossíveis de publicar noutros suportes), guardo agora rótulos de garrafas de vinho, desde que o considere bom e o tenha bebido numa roda de amigos. Mas é muito difícil retirar um rótulo de uma garrafa. Quase tanto como da imagem de um activista. O que vale é que não devemos exigir que os rótulos saiam intactos. Quando saem rasgados são mais autênticos.

Sem carta de chamada

A senhora minha mãe, que este ano completaria cem anos se não tivesse partido no ano passado, sonhou a vida toda com o Brasil, país para onde quis emigrar mas que nunca chegou sequer a visitar. Enquanto solteira e antes de ir trabalhar, queria partir para o Brasil, mais precisamente para São Paulo, onde viviam uns tios que aí fizeram fortuna. Mas os tios ricos da América (América do Sul, entenda-se) nunca lhe enviaram a “carta de chamada”, o documento indispensável para poder fugir dos “horizontes pequenos” que durante tantos anos amarraram Portugal, e ela morreu com saudades de uma cidade que nunca visitou.

No mar da minha inexistência

Jardins do Palácio / JR

Nem quero pensar // que estou a chegar a velho. // Não vou lá chegar. // // Hoje, perco tudo // - a chave da minha casa // e todas as âncoras. // // Sem ter rendimentos, // no mar da inexistência // escolho à deriva.

Júlio Roldão

02.Outubro.2018

Meu Querido Mês de Agosto

Paleta de cores quentes e primárias / JR 2018

E eu, vaidoso indisfarçável, a ver-me representado numa Exposição Internacional de Livros de Artista patente desde hoje e até 15 de Setembro no Auditório Municipal de Gondomar. Denominada "Pensamento e Risco", esta exposição reúne mais de 200 livros de artista de 124 autores, numa "biblioteca" que expõe consagrados e iniciados, como eu, nesta arte dos livros de artista, patamar superior dos cadernos, ou canhenhos, de viagem e até dos cadernos de apontamentos dos jornalistas. Todos eles, seguramente, livros únicos com o peso que as peças únicas possuem.

Pequenas pegadas digitais a mais

coisas pequenas, técnica mista. Júlio Roldão 2018

Esta escrita clara é uma das meninas dos meus olhos, embora nem sempre a trate com a assiduidade com que trato a casa onde moro na grande cidade feicebuquiana. Está, esta escrita, ao nível da minha correspondência pública privada, enviada a partir da ruadobonjardim.pt, onde também moro, e ao nível do sítio do roldeck.pt, outro espaço onde tuíto mais no que no lugar onde, em rigor, tuitamos, mais ainda do que noutras redes a que aderi mas cujo nome nem sei escrever. A minha vida real ainda não se confunde com a virtual, mas para que isto nunca venha a acontecer é preciso limpar todas as pegadas digitais que estejam a mais.

Edifícios que são verdadeiros faróis

O terminal de Cruzeiros visto do Beijo Bar, em Matosinhos (pormenor de aguarela JR/2018)

A Mesquita Hassan II, um dos templos mais altos do Mundo, mesquita construída na cidade costeira de Casablanca, é edificação visível e identificável de muito longe para quem se aproxime da cidade vindo pelo mar. Quero acreditar que o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, embora de menor volumetria, também será reconhecido de longe por quem se aproxime da costa continental portuguesa em direcção ao Porto ou a Matosinhos. Este edifício, projectado pelo arquitecto Luís Pedro Silva, faz-me lembrar uma obra de um outro grande arquitecto, Frank Lloyd Wright -  o Museu Guggenheim de Nova Iorque que apenas vi uma vez e do lado de fora. O suficiente para o guardar na minha memória.