Meu Querido Mês de Agosto

Paleta de cores quentes e primárias / JR 2018

E eu, vaidoso indisfarçável, a ver-me representado numa Exposição Internacional de Livros de Artista patente desde hoje e até 15 de Setembro no Auditório Municipal de Gondomar. Denominada "Pensamento e Risco", esta exposição reúne mais de 200 livros de artista de 124 autores, numa "biblioteca" que expõe consagrados e iniciados, como eu, nesta arte dos livros de artista, patamar superior dos cadernos, ou canhenhos, de viagem e até dos cadernos de apontamentos dos jornalistas. Todos eles, seguramente, livros únicos com o peso que as peças únicas possuem.

Pequenas pegadas digitais a mais

coisas pequenas, técnica mista. Júlio Roldão 2018

Esta escrita clara é uma das meninas dos meus olhos, embora nem sempre a trate com a assiduidade com que trato a casa onde moro na grande cidade feicebuquiana. Está, esta escrita, ao nível da minha correspondência pública privada, enviada a partir da ruadobonjardim.pt, onde também moro, e ao nível do sítio do roldeck.pt, outro espaço onde tuíto mais no que no lugar onde, em rigor, tuitamos, mais ainda do que noutras redes a que aderi mas cujo nome nem sei escrever. A minha vida real ainda não se confunde com a virtual, mas para que isto nunca venha a acontecer é preciso limpar todas as pegadas digitais que estejam a mais.

Edifícios que são verdadeiros faróis

O terminal de Cruzeiros visto do Beijo Bar, em Matosinhos (pormenor de aguarela JR/2018)

A Mesquita Hassan II, um dos templos mais altos do Mundo, mesquita construída na cidade costeira de Casablanca, é edificação visível e identificável de muito longe para quem se aproxime da cidade vindo pelo mar. Quero acreditar que o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, embora de menor volumetria, também será reconhecido de longe por quem se aproxime da costa continental portuguesa em direcção ao Porto ou a Matosinhos. Este edifício, projectado pelo arquitecto Luís Pedro Silva, faz-me lembrar uma obra de um outro grande arquitecto, Frank Lloyd Wright -  o Museu Guggenheim de Nova Iorque que apenas vi uma vez e do lado de fora. O suficiente para o guardar na minha memória.

Entrar no Ano Novo em trajes menores

Vestido a rigor (pormenor). Acrílico sobre verso de tela 2011 / Júlio Roldão

Assistir ao Concerto de Ano Novo que a Eurovisão transmite no primeiro dia do ano é já um clássico. No meu caso em trajes menores, de roupão, reclinado no sofá onde vejo televisão, a debicar doces que sobraram da mesa do reveillon e conferindo, no facebook, mensagens de amigos e outros emails, coisa impossível de fazer na Sala Dourada do "Musikverein" de Viena, onde decorre o concerto. Já confessei ter o secreto e sonhado desejo de dirigir uma orquestra filarmónica, sonho vivido muitas vezes, também em trajes menores, frente a espelhos, mas nunca inclui este desejo na lista dos desejos do novo ano. Onde figura o desejo de ser retratado pela Annie Leibovitz do jeito que ela fotografou Keith Haring (no meu caso forrado a páginas de jornais) e o desejo de ir até Moscovo de comboio para aí apanhar o Grande Transsiberiano e viajar até Pequim. 

Um diabo aprisionado num vitral e num cartazete

Um belo diabo, assinado pelo Tossan, com uma paleta de cores muito quente

O diabo que eu mais gosto é o diabo que o Tossan pintou para um adereço de cena e para um cartazete do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC). Como adereço, seguramente para um Auto de Gil Vicente,  ganhou a forma de um vitral, como cartazete foi impresso em papel. Tem uma paleta de cores muito quente, uma paleta de fogo, só comparável às paletas de cores de alguns grandes pintores africanos. Há diabos assim, muito simpáticos. Em regra são barqueiros do outro mundo, uma espécie de porteiros para uma outra dimensão ou, se quiserem, seguranças implacáveis na triagem das entradas.

Como se voltasse a não haver um amanhã

Las Vegas, 2009 / foto manipulada JR

Em 1982, na Catalunha, mais precisamente em Sitges, num bar em forma de meia-lua, pavoneando-me à jovem e lindíssima filha do estalajadeiro e bebendo gin-tonic atrás de gin-tonic, no Outono desse ano dei por mim a provocar,  altas da madrugada, a polícia que tentava controlar o barulho excessivo para a hora e apenas sorria se alguém, como eu, lançava  um então despropositado "Viva a Catalunha, livre e independente". Hoje, 35 anos depois, tudo está mais extremado e a polícia que obedece a Madrid não sorri quando alguém defende o caminho da independência para a nação catalã. Pelo contrário, há polícias que batem e tentam humilhar quem ousa defender aquele caminho. A monarquia de Espanha, restaurada no estertor do franquismo pelo próprio ditador, Francisco Franco, mostra a vocação imperial em que assenta.

Naquele parque de camiões TIR do restaurante

Uma linha numa montagem de um pesado / JR 2017

Na instalação sonora daquele restaurante da route 66, sempre cheio de camionistas de longo curso, ouviu-se um aviso inesperado : "agradece-se ao senhor motorista que acabou de estacionar As Meninas de Avinhão do Picasso o favor de encostar mais aos Chinelos da Joana de Vasconcelos. De repente, eu que chegara com o meu auto-retrato sem cabeça, lembrei-me que a moda eram as reproduções de quadros seleccionados estampadas nas paredes exteriores dos camiões,  a transformar os parques de estacionamento para pesados dos restaurantes da beira da estrada em verdadeiros museus gigantescos. Foi então que se reacendeu a minha perseguição ao Grito de Edvard Munch - "O Grito de Munch? Esteve aqui a almoçar mas já seguiu viagem. Dentro de quinze dias volta cá".