Ninguém quer ficar triste na fotografia

Baixo relevo no portuense jardim do Marquês (pormenor)

Há dias, alguém reparou no olhar triste do Manequim do Mar, um manequim trabalhado pelo pintor José Emídio no âmbito de um desafio colocado a vários artistas pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Nunca tinha reparado na tristeza daquela escultura, talvez por sempre a olhar apenas como um manequim, maquilhado, e não como uma peça escultórica que realmente é. Mas olhando-a com olhos de ver, acabei reconhecendo que o Manequim do Mar tem um olhar triste, sendo certo que essa tristeza, recriada pela intervenção de José Emídio, é a exacta medida da obra de arte em que se transformou aquele manequim produzido em série numa fábrica de manequins. Na sequência desta observação, comecei o olhar melhor para muitas manifestações de arte que vivem na cidade, muitas delas também de alma triste, embora ninguém queira ficar triste aos olhos dos outros.

Clérigos, Ponte e Cubo da Ribeira

Porto seguro / Júlio Roldão (estudo para uma apresentação)

Há dias, numa celebração de amigos que recordavam um amigo comum, ouvi, pela voz de Paula Oliveira, esse notável fado de José Carlos Ary dos Santos (poema) e José Luís Tinoco (melodia) denominado "Um Homem na Cidade". Ocupou, para a minha geração, que é aquela que tinha 20 anos quando aconteceu o 25 de Abril de 1974, o pódio do renascimento do fado, há 40 anos pela voz de Carlos do Carmo. Mas Paula Oliveira também sabe agarrar essa madrugada de que fala o poema do Ary dos Santos, e dar-lhe uma renovada força como hino às cidades que sabem ser espaços de Liberdade. A cidade deste trabalho é Lisboa, mas podia ser o Porto que também é uma cidade da Liberdade. O meu Porto, o meu porto seguro que temos sempre de aprender a gostar.

Uma pergunta à queima-roupa

Jornalista devidamente arquivado / autorretrato JR 2017

Numa daquelas sessões de glorificação do jornalismo como profissão sedutora, um adolescente recém-saído da infância, depois de saber que eu tinha sido jornalista durante mais de 30 anos, perguntou-me, à queima-roupa, qual tinha sido a entrevista ou a reportagem que eu mais tinha gostado de assinar ao longo de todo o meu tempo profissional. Julgo ter respondido que foi uma reportagem em Cabo Verde realizada por altura da transição do regime de partido único para um regime multipartidário, pois este trabalho foi um dos que mais gostei de ter desenvolvido. Pudesse a resposta ter sido dada com mais tempo e teria escolhido uma reportagem sobre o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), no ano de 1985, um trabalho, realizado com a pressão de ter de publicar um texto por dia, materializado na publicação de postais endereçados a gente ligada ao Teatro, com reparos, pedidos ou mesmo elogios, cujas imagens foram sempre fotografias dos espectáculos escolhidos, assinadas por Marco, reporter fotográfico do JN. Um trabalho simples, a ocupar pouco espaço, mas de grande impacto.

Também estou a pensar no caso de

Crónicas há muitas... JR foto e fotomontagem

Estou a pensar alterar o meu bordão nos textos que coloco na minha página do facebook , tornando-o mais consistente.  Em vez do já velho "Estou a pensar" talvez comece a escrever "Estou a pensar no caso de ..." Homenageando Carlos Drummond de Andrade que titula assim contos, crónicas e até pelo menos um poema, como é o caso do "Caso do Vestido". Se é certo que Rubem Braga continua a ser o meu cronista de eleição - por ele ter feito da crónica "o género [único, acrescento] da sua vida", como diz Miguel Sanches Neto, professor de Literatura -, Drummond de Andrade, como também Manuel António Pina, com quem aliás tive a honra de privar na Redacção do Jornal de Notícias, são também cronistas maiores que olho como mestres deste género jornalístico e literário.

A importância de saber assumir o erro

Caracteres sobre caracteres.

Neste meio de comunicação - mais frio do que o frio "offset" -,  sinto falta de um programa de tratamento de texto que contemple um modo de funcionamento semelhante ao das velhas máquinas de escrever e proporcione a possibilidade de se apagar texto "batendo" por cima do texto a apagar xxxxxxxxxx. De forma a ser possível ler, com alguma dificuldade, o que fica sob tais xxxxxxxxxx. Como que a emendar um risco de um desenho com um outro risco mas sem apagar o risco original, ou melhor, inicial. Assumindo o erro, ou melhor, a versão primeira, rejeitada, o que só pode enriquecer a leitura, mesmo quando escrevemos para um número muito restrito de leitores ou até só para nós.

A primeira guerra (comercial) de Donald Trump

Mapa Mundo em vidro temperado JR 2009 (técnica mista) Pormenor

O presidente dos EUA "declarou" guerra comercial ao México, ao retomar a ideia da construção de mais muros a separar os dois países e ao garantir que esta obra será paga pelo próprio México. Esta "declaração" teve, como vai sendo costume, divulgação global das redes sociais, bem como uma outra, também assumida por Donald Trump, a aconselhar o presidente do Mexico a não comparecer a um encontro agendado com o presidente dos Estados Unidos caso não esteja disposto a aceitar pagar os muros. Estes sinais contidos nas linhas e nas entrelinhas destas declarações agravam a fragilidade que envolve o Mundo, repleto de problemas gravíssimos como o provam os êxodos há muito não vistos de populações que fogem da miséria e da morte.

Bate, bate o pé, duas vezes em pontas e uma vez no chão

Bate, bate o pé, duas vezes em pontas e uma vez no chão JR, técnica mista

Em sonhos, danço como dançam
os melhores dançarinos,
borboletando este coração que bate,
bate o pé, duas vezes em pontas e uma vez no chão.

Em sonhos, canto como cantam
as vozes que inquietam nossas emoções,
lavando minha alma no vinho especial
que faz o céu da boca trinar em cristal.

Em sonhos, toco na tocata,
delicata mente,
sabendo que corda posso ‘inda esticar,
para ter prazer sem nunca o negar. 

Júlio Roldão, Coimbra 05.11.2016