Como se voltasse a não haver um amanhã

Las Vegas, 2009 / foto manipulada JR

Em 1982, na Catalunha, mais precisamente em Sitges, num bar em forma de meia-lua, pavoneando-me à jovem e lindíssima filha do estalajadeiro e bebendo gin-tonic atrás de gin-tonic, no Outono desse ano dei por mim a provocar,  altas da madrugada, a polícia que tentava controlar o barulho excessivo para a hora e apenas sorria se alguém, como eu, lançava  um então despropositado "Viva a Catalunha, livre e independente". Hoje, 35 anos depois, tudo está mais extremado e a polícia que obedece a Madrid não sorri quando alguém defende o caminho da independência para a nação catalã. Pelo contrário, há polícias que batem e tentam humilhar quem ousa defender aquele caminho. A monarquia de Espanha, restaurada no estertor do franquismo pelo próprio ditador, Francisco Franco, mostra a vocação imperial em que assenta.

Naquele parque de camiões TIR do restaurante

Uma linha numa montagem de um pesado / JR 2017

Na instalação sonora daquele restaurante da route 66, sempre cheio de camionistas de longo curso, ouviu-se um aviso inesperado : "agradece-se ao senhor motorista que acabou de estacionar As Meninas de Avinhão do Picasso o favor de encostar mais aos Chinelos da Joana de Vasconcelos. De repente, eu que chegara com o meu auto-retrato sem cabeça, lembrei-me que a moda eram as reproduções de quadros seleccionados estampadas nas paredes exteriores dos camiões,  a transformar os parques de estacionamento para pesados dos restaurantes da beira da estrada em verdadeiros museus gigantescos. Foi então que se reacendeu a minha perseguição ao Grito de Edvard Munch - "O Grito de Munch? Esteve aqui a almoçar mas já seguiu viagem. Dentro de quinze dias volta cá".

Um campo depois da colheita para deleite do corpo

Culturgest Porto (instalação de Alberto Carneiro) foto /JR 2017

Tendo sido muito marcado, enquanto público com vontade de saber fruir Arte, por uma instalação de Alberto Carneiro, instalação (Canavial) que vi pela primeira vez em Coimbra, no início dos anos 70 do século passado, ainda antes do 25 de Abril de 1974, foi com redobrado entusiasmo que entrei hoje, dia 3 de Setembro de 2017, numa outra obra urbana do autor, para utilizar uma expressão de Delfim Sardo, que está instalada, até 1 de Outubro, na Culturgest Porto. Trata-se de "um campo depois da colheita para deleite estético do nosso corpo" e é  uma instalação feita de medas de centeio, semeado no Outono de 2016 para a própria exposição. Com um perfume raro e a sensação rara do que é pisar o tapete de palhas que cobre um campo depois de uma colheita. 

Espécies de "fake news" dos bons velhos tempos

cores falsas / foto JR 2010, manipulada em 2017

Quantos vezes e em quantos jornais foi possível ler, com honras de manchete, em dias 25 de Dezembro, a novidade, de todos conhecida, a assegurar que o dia 25 de Dezembro é o Dia de Natal. Este fenómeno noticioso acontecia também no Carnaval, em certas peregrinações muito concorridas e noutras efemérides menos celebradas. Mas também havia notícias fabricadas ("fake news") e até quem se gabava  de ter sido, em tempos que esse gabarola considerava velhos e bons,  enviado a Fátima para cobrir uma das peregrinações mais concorridas, tendo assinado uma reportagem, "de fazer chorar as pedrinhas da calçada", sem sair da margem esquerda do Douro, escondido em casa de amigos, a jogar à sueca e a ouvir as cerimónias pela fidelíssima Rádio Renascença, incapaz de um pecado desta Natureza, quase mortal. Claro que aquele puro exemplar da chamada velha guarda não prescindiu das chamadas ajudas de custo, inerentes à deslocação, como também gostava de gabar-se. Também o terrível naufrágio das traineiras, na madrugada de 2 de Dezembro de 1947, com 152 pescadores mortos no afundamento de quatro traineiras, entre a Aguda e o Senhor da Pedra, mereceu, na Imprensa escrita da época, relatos com transcrições em discurso directo dos últimos momentos vividos em traineiras que se afundaram sem sobreviventes.

Esgotei todas as minhas notas de rodapé

Um livre trânsito para qualquer viagem, numa biblioteca. JR

Acabei de ler a crónica que Eugénio Lisboa assina na mais recente edição do Jornal de Letras - "Bibliotecas" - e dei por mim a lembrar-me do senhor Silva, um secretário administrativo (bedel) da Universidade de Coimbra que trabalhava para a Biblioteca da Universidade, enfrentando a desconfiança dos estudantes mais empenhados na vida associatica coimbrã antes do 25 de Abril ao pedir-lhes comunicados e outros documentos em distribuição alegal pela Academia, documentos que recolhia para o espólio da Biblioteca. Esta vontade de ter tudo o que se edita não é exclusiva da norte-americana Biblioteca do Congresso, com um espólio de dezenas de milhões de livros. Quase sem saber ler nem escrever, eu já reuni mais de três mil livros, quase todos meus companheiros para a vida, que me acompanham para todo o lado dominando espaços privados onde gosto de estar até para aguarelar arremedos de bibliotecas, sem ofensa para as Bibliotecas de Maria Helena Vieira da Silva, uma das quais ilustra a crónica de Eugénio Lisboa.

Estes dois não são galos de contrafação

Um galo comprado numa feira persegue um galo recriado em 3D numa tela (foto JR)

O galo da direita tem um toque de esquerda. Em contrapartida, o da esquerda, mais perfeitinho, é dos que são feitos em série para serem vendidos em qualquer barraca de feira ou numa loja portuguesa de chineses. Com ou sem íman para colar no frigorífico. Um e outro, ambos portuguesíssimos, estão de partida para Trieste, em Itália, mas só o da direita, por sinal engessado a uma tela, leva assinatura junto à pata esquerda, gravada no barro, num estilo tosco como convém a uma quase contrafação de artesanato. Nenhum galo de Barcelos é contrafeito. Nenhum sob pena de serem todos, incluindo aquele galo gigante que foi encomendado à artista Joana de Vasconcelos para celebrar os 450 anos da criação da cidade do Rio de Janeiro, missão substituída por uma viagem a Pequim e a Xangai, celebrando o ano chinês do Galo, que começou no passado dia 28 de Janeiro e vai terminar a 15 de Fevereiro de 2018. 

Herança do Beaubourg chega ao Via Catarina

Beaubourg na portuense Via Catarina / foto JR Agosto 2017

Tubagens ao estilo das que ressaltam como imagem de marca exterior do parisiense Centro Beaubourg, dos arquitetos Renzo Piano e Richard Rogers, um espaço cultural que o presidente Georges Pompidou encomendou para albergar, próximo a Les Halles, entre outras instituições, o Musée National d'Art Moderne, essas tubagens técnicas que a Arquitetura dos anos 70 assumiu totalmente, utilizando-as com intencionalidades estéticas, estão provisoriamente na clássica fachada do Edifício Via Catarina - um edifício que já foi sede do jornal "O Primeiro de Janeiro" e agora é um centro comercial da portuense Rua de Santa Catarina. Essa tubagem cor-de-rosa faz parte do projecto da "Fábrica de Sonhos", uma "falsa" fachada para o edifício com que o arquiteto Tomé Capa venceu a edição 2017 do concurso Viartes. Os centros comerciais são, em parte, uma espécie de fábricas de sonhos e Tomé Capa soube traduzir este fenómeno.