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Um banjo mudo de sete cordas

Banjo com uma corda a menos

Pode um banjo com mais de oitenta anos de existência, que se encontra mudo e com menos uma corda há pelo menos vinte anos, voltar a tocar? Ou será que um instrumento assim apenas sobrevive como peça de um museu, como os chamados museus da existência constituidos por objectos que valem pelo que fazem lembrar? Eu tenho um banjo muito especial para mim por ser o banjo do meu pai, embora eu não saiba tocar e lembre apenas algumas melodias que ele tocava mas que eu, duro de ouvido, nem sou capaz de trautear com suficiente eficácia para que outros identifiquem essas modas.

25 de Abril, brindaram Caetano Veloso e Gilberto Gil no Coliseu do Porto

Porto, Abril de 2016

Neste 42 anos, conseguiu-se, conseguimos muito -  água canalizada e luz eléctrica na quase totalidade das casas, férias pagas, décimo terceiro e décimo quarto mês para quem trabalha por conta de outrém e o faz sob a proteção dos direitos já consagrados, um ordenado mínimo, um Serviço Nacional de Saúde que já foi exemplar ou uma escola pública de referência…  Conseguimos muito mas ainda nos sabe a pouco, como cantava o Sérgio Godinho. Sabe sempre a pouco quando temos 20 anos e queremos o impossível

Certas e instaladas lassidões progressivas

livro sobre cartaz antigo colado em madeira

A instalada e conveniente lassidão progressiva que afasta gente da participação, por inércia, de muitas manifestações colectivas nem sempre é má. Muitas vezes, é apenas a legítima vontade em evitar desperdiçar tempo quando o próprio tempo pode ser pouco para o trabalho desejado e, nesta perpectiva, também trabalho necessário.  Colar um cartaz numa tábua de madeira pode ser a tarefa mais importante da vida de quem, em certo momento, quer guardar para sempre a memória de um dia feliz da sua própria existência.

Canto e contracanto de uma gata preta

cortina vermelha e preta JR 2016

Afinal o gato preto que aparece em quase todas as fotos do Largo do Moinho de Vento não é um gato é uma gata muito ciosa desse (re)canto do Porto quando a luz do Sol ali rivaliza com o melhor Sol do Mediterrâneo. Aquele recanto raramente é frio e nem precisa de contracanto para ganhar a ilusão do calor. No Museu da Minha Existência, descobreto a partir de um trabalho da Companhia de Teatro Amarelo Silvestre, existe um "Canto e Contracanto" em chumbo, que já serviu de matriz para impressão de um título de uma notícia de jornal que, muito provavelmente, evocava o poema de José Saramago que Luís Cilia musicou - "Aqui longe do Sol que mais farei // Senão cantar o bafo que me aquece? // Como um prazer cansado que adormece // Ou preso conformado com a lei". É apenas um objecto de museu, guardado sem aparente razão. 

À conversa com um primo de Mister Mistoffelees

Gatapiscando uma gata preta / foto JR 2016

Enquanto prossegue em Brasília e noutras cidades do Brasil a rodagem do filme "Destituição de Dilma Rousseff", Mr Mistofflelees, que programava deslocar-se ao Rio de Janeiro para marcar lugar, com antecedência, nos Jogos Olímpicos de 2016, ficou por Portugal, mais precisamente pelo Porto, hospedado numa velha casa de família, em pleno centro da cidade, ao Largo do Moinho de Vento. Foi lá que o encontramos gatapiscado numa gata preta de olhos cor de avelã, a ver como param as modas.

A autocensura nunca prescreve

Mesa irrepreensivelmente polida / Foto JR 2010 (pormenor)

Deixei escrito na minha página do facebook que a autocensura não prescreve, nem mesmo quando o verbo prescrever é intransitivo. E confessei que, apesar de retirado, não sou capaz de publicar, com o contraste que gostaria, uma imagem do reflexo do Poder, sem aparente importância, que marcou o momento em que a obtive. Na verdade só consigo publicá-la disfarçando-a sob uma montanha de filtros do "photoshop" o que ajuda a imaginar quão difícil será hoje divulgar informação bem mais importante do que uma fotografia de uma mesa irrepreensivelmente polida com reflexos de vários patamares do Poder.

Visitar um grande peixe no fundo do mar

Tapeçaria experimental na Fundação José Rodrigues / Foto JR 2016

A tentação de transformar um apontamente escrito num pretexto para outro texto é irresistível para quem gosta de escrever. Só queria legendar  umas tapeçarias experimentais instaladas na Fundação Escultor José Rodrigues (‪#‎FEJR‬#), à Fontinha, no Porto -  onde vão ficar, enquadradas com outras "cumplicidades" que falam do abuso dos recursos naturais dos mares através de trabalhos de alunos portugueses que estudam arte e de artistas portugueses e noruegueses que aceitaram o mesmo desafio -. mas não resisto a "viajar" até ao fundo do mar, no lugar onde vive aquele "Grande Peixe" que Tim Burton filmou para sempre.

O prazer de viver no centro do Porto

cabeçalho do INYT com inserte (pormenor)

Pelas sete da manhã, ouço parar um carro que mantém o motor a trabalhar, ouço as portas do carro a abrir e pouco tempo depois o som do jornal a ser colocado na caixa do correio. O carro segue o seu caminho e eu fico com a certeza de que chegou o International New York Times, em edição papel. Vem de Madrid, uma das mais de 35 cidades onde este jornal é impresso, de segunda a sábado , para chegar no dia, como o pão fresco, a milhares de assinantes como eu. Sensivelmente ao mesmo preço das edições em papel dos jornais portugueses, com a vantagem de ser colocado em casa do assinante no próprio dia, um privilégio de poucos títulos só possível em algumas localizações entre as quais o centro da cidade do Porto.

Escondido numa tapeçaria do Camarinha

Tapeçaria de Guilherme Camarinha

Nunca acordo. Chego pela manhã, vindo de sonhos lindos nunca acabados. Lugares frequentados por  Wislawa Szymborska ou por Guilherme Camarinha, como aliás ambos testemunharam - ela tecendo poemas de sonho, ele elevando a tapeçaria ao patamar da poesia. Se eu fosse rico, comprava às Tapeçarias de Portalegre, uma tapeçaria do Camarinha e escreveria o que sonho escrever a olhar para ela e a ouvir as músicas de uma playlist que muitos dos meus amigos e muitos amigos desses meus amigos estão a seleccionar para mim. E quando estivesse mais preguiçoso, para não falar noutros pecados, escondia-me, muito escondido, na própria tapeçaria. É possível.

A fingir de jornalista na Ordem dos Arquitectos

Ordem dos Arquitectos, Porto (pormenor) / JR 2016

Os arquitectos portugueses compraram duas casas gémeas construídas no Porto (Rua de Álvares Cabral, 144) no século XIX, mandaram restaurar uma, reabilitar outra e construir, de raíz, uma terceira, estando a inaugurar instalações na cidade do Porto em alguns aspectos verdadeiramente exemplares. Fingindo que tinha voltado a ser jornalista, visitei hoje este espaço que em breve terá recantos abertos ao público, "devolvidos ao público" para usar a expressão dos próprios arquitectos, além dos espaços destinados aos serviços da Ordem e a uma oferta, prioritariamente virada para os arquitectos, que contempla lugares de coworking e salas para formação. Os espaços mais públicos serão um pequeno bar e uma livraria especializada, ambos a concessionar, por concurso já aberto, a terceiros.