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Meio poema em meio linguado do JN

Linguado com poema / pormenor JR 2016

Os papéis que reaparecem no meio de livros são, muitas vezes, surpreendentes. Como um "linguado" do Jornal de Notícias (linguados eram as folhas de papel onde, no tempo do chumbo, dactilografavamos as notícias) que eu utilizei, em data desconhecida, para rascunhar um poema. Talvez seja melhor dizer meio poema ou um poema contrafeito. Já o tinha visto e relido há uns tempos, mas tinha voltado a perder-lhe o rastro. Afinal foi parar a uma edição da peça "Woyzeck", uma dramaturgia que marca as minhas fragilidades desde 1972, quando, no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, representei e personagem Woyzeck na peça homónima inacabada de George Buchner e na encenação de Julio Castronuovo. O linguado do Notícias é posterior a tudo isto.

Hazul mas com brancos, vermelhos e amarelos

Papel colado em parede, pormenor de um trabalho de Hazul

No Porto, azul também pode escrever-se com agá grande - Hazul. A palavra agá é que não leva agá.  Se levasse, escrever-se-ia hagá, o que seria um erro em qualquer dos acordos ortográficos conhecidos. Mas Hazul existe e é nome de artista, aliás bem representado nas ruas do Porto, como prova um Hazul, em papel colado na parede, que pode ser visto e apreciado na Rua de António Pedro, uma rua pequenina e estreita, que começa na Rua de Santa Catarina, mesmo ao lado do Grande Hotel do Porto, e vai até à Rua do Ateneu Comercial do Porto, a do Restaurante Abadia. 
Hazul, mas com brancos, vermelhos e amarelos.

Um caso de vermelhos muito parecidos

Numa rua do Porto / JR 2016

Não sei se sonhei ou se aconteceu mesmo,  mas terei confundido um dos balcões de um dos bancos cuja operacionalidade e visibilidade estão a crescer em Portugal com os balcões das estações de Correio e entrei na dependência bancária para comprar um envelope de correio verde. Correios e banca já vendem serviços de jantar, livros, relógios e outras raspadinhas, além dos selos e dos créditos. E os correios até têm autorização para exercer certas actividades próprias do sector financeiro, como aliás acontecia antigamente. Daí que a minha confusão não seja tão extraordinária assim, nem seja justificável que um bancário fique vermelho de tanto corar se alguém lhe pedir um envelope de correio verde, por exemplo no formato XS DL 110X220.

Da minha janela virada a Sul

Liberty a Sul / JR 2016

Se olhar para Oeste vejo a Igreja da Lapa, se olhar para Sul vejo, ao nível de alguns telhados vermelhos, o néon da Liberty, em negativo, como se os jornais ainda fossem impressos a quente, ou seja com carimbos de chumbo, enormes, sendo cada carimbo do tamanho da própria página que irá imprimir. Tamanho broadsheet, USA today ou aquele que está a fugir para o tabloide - na Rua do Bonjardim, neste bom Porto, porta sim, porta sim, há um gato, um candiGato, e eu aqui morto de saudades do jornalismo e das crónicas de Domingo. Que crónica não daria aquele Urso de Ouro para a Balada de um Batráquio, uma curta de dez minutos mais do que suficientes para mostrar que os nossos costumes não são tão brandos como gostamos de pensar.

Saudades de Veneza, a sereníssima

Praça de São Marcos

Veneza é uma das cidades onde apetece sempre voltar, como convidados, ou não, de Corto Maltese que será sempre um dos melhores e mais elegantes guias da sereníssima. A seu lado, nas margens pedonais dos canais, pelas pontes, sentimo-nos tão venezianos que, por um Carnaval, podemos ser, pelo menos durante três dias, o que mais gostariamos de ter sido sempre. Sem os fantasmas dos pecados inventados para impedir a nossa vontade em sermos felizes, mesmo à chuva e quando a maioria teima em abrigar-se nas arcadas. Aqui, de costas ou de frente para o Caffe Florian na Piazza San Marco 56-59, Veneza. Sobre as cores imaginadas do chão molhado da praça.

Lama sobre um cisne de 30 metros

Lama JR/2016

Hoje queria ancorar, neste porto, um veleiro preparado para grandes viagens oceânicas, um Swan 105 RS, ou seja, um cisne de 31,69 metros de comprimento e 659,80 metros quadrados de área de vela, duas rodas de leme, muita luz e outros sonhos desenhados pelo arquitecto naval German Frers, um super-iate que vi numa revista dita "de elite", que se publica, ou publicava, em Angola e em Portugal. Subitamente, porém, caiu sobre o cisne um tsunami de lama, quando soube que um jornalista, chefe de redacção adjunto de um jornal diário que é também subchefe de redacção do canal de televisão ligado a esse jornal, pôs em causa, de forma depreciativa, a autenticidade do tamanho das mamas de uma senhora cujo casamento foi notícia, acusando-a de ter um "ar de badalhoca". Com que direito permitirei opiniões menos favoráveis relativamente a uma revista dita de elite, quando publicações consideradas populares vendem lama por exercícios de liberdade de expressão?

Perfumes de Lisboa, verbo amar

recortes de Lisboa, verbo amar JR/2016

Com histórias de amor próprias dos encontros e desencontros das grandes cidades, Mário Castrim, que muitos só recordam pelas críticas de televisão que assinava no Diário de Lisboa, manteve neste jornal  uma série de crónicas subordinadas à designação genérica de "Lisboa, Verbo Amar".  Pequenos textos, quais frascos de grandes perfumes, a contar histórias tão simples como a do fim de um namoro à conta de um pastel de nata a mais. Contou o Castrim que vieram três natas para a mesa e um dos namorados comeu sofregamente uma delas para comer também a segunda antes do outro terminar a que lhe calhou inicialmente - foi o princípio do fim de um amor com algum açúcar e alguma canela, mas não quanto bastasse. Ao Mário Castrim devo também a gratidão de ter sido, com o apadrinhamento do Carlos PInhão, meu editor de poesia, publicando, em "o diário", um das minhas primeiras contrafacções poéticas - "Imaginar", uma quase declaração de amor. 

Estrondo a mil milhões de anos som

Relógio do Arco da Rua Augusta (pormenor) JR /2016

Atrevidamente, como já confessei, dei por mim a tentar escrever à maneira de António Gedeão. Tudo por causa destas novidades recentes em torno das ondas gravitacionais que Einstein anunciou há um século e agora foram finalmente ouvidas.  Chamei estrondo ao texto, de suposta matriz poética, que escrevi, esperançado, contudo, que Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, o cientista que assinava António Gedeão quando escrevia poesia, não o leia, lá na galáxia para onde se retirou vai fazer dezanove anos no próximo dia 19. Talvez lá não haja (ou tenha deixado de haver) internet. Aí vai o estrondo - Esse tão leve barulho // agora chegado à Terra // foi um choque de buracos // há mil milhões de anos som. // - Mais mês, menos mês.

Manufactura de Tapeçarias de Portalegre

Rótulo de Vinho / JR 2016

Como confessei na página facebooquiana "Escrita Clara de Júlio Roldão", fotografei, ontem, num restaurante em Lisboa, um pedaço de um rótulo de uma garrafa de vinho, do Alentejo, cujo ficheiro jpeg foi alvo de uma alquimia especial num velho programa Adobe Photoshop CS4. Filtros à parte, no final da magia, aquilo mais parecia uma tapeçaria manufacturada em Portalegre, apesar do fundo preto falso, e das bocas e dos olhos das instrumentistas também falsos.  Ainda sob a influência das impressões fotográficas de Wolfgang Tillmans que estão patentes em Serralves "no limiar da visibilidade". Ainda com a nostalgia de poder, um dia, mandar manufacturar um desenho meu na Manufactura de Tapeçarias de Portalegre.

Arte no limiar da visibilidade

FILLLIOU, Livre-etalon / Foto JR 2016

Olho para um livro de artista em destaque na exposição "Que Sais-je?" Livros e Edições de Artista da Coleção de Serralves" que "ocupa" a Biblioteca do Museu e ponho-me a fotografá-lo como julgo que é o estilo de Wolfgang Tillmans, o artista cujas imagens "No limiar da visibilidade" integram outra exposição de Serralves, esta patente até ao próximo dia 25 de Abril. É bem verdade que a arte que vemos influencia o nosso olhar sobre o Mundo. É bem verdade que, por vezes, temos de fazer um esforço mais sério para lermos o que realmente está escrito. Numa das salas de Serralves, uma das imagens de Tillmans, produzida com jacto de tinta sobre papel, pode parecer, num olhar mais apressado, uma enorme tapeçaria. E não é.