arquivo > Março de 2013

Sem fôlego no retorno

Janela com vista para o Palácio do Governo da Provincia de Luanda

Já namorava há muito tempo o livro "O retorno", de Dulce Maria Cardoso, mas só ontem o comprei. Estou virado para África e o comentário de Urbano Tavares Rodrigues a classificar essa narrativa como uma obra prima e "uma criação portentosa da vida dos retornados" deu o impulso necessário à compra. Às vezes compro livros que demoro a começar a ler (alguns dos quais relego para a minha eternidade), mas já iniciei a leitura deste "retorno" e estou a ficar sem fòlego tal é a vontade de o ler até ao fim, numa ânsia que já não sentia há muito na leitura de um livro. Só tenho parado um pouco para escrever. O que tenho sempre de escrever, por dever de ofício, e algumas memórias que essa leitura está a despertar.

Rasurando escritos antigos

vermelhos com um leve picotado

Plagiando-me, escrevo, a partir dos retratos escritos que há 23 anos fixei numa "reportagem de mil linhas" sobre o que vi, ouvi, cheirei, toquei e provei em Cabo Verde, memórias dessa minha primeira viagem ao arquipélago, com passagem por quatro ilhas - Sal, S. Vicente, Santiago e Maio. Preparo assim um regresso de três dias, que se concretizará apenas na Ilha do Sal, regresso que pode servir de pretexto para reciclar os textos escritos há quase um quarto de século dando-lhes uma nova oportunidade, tanto mais merecida quanto essa reportagem foi a que mais gostei de ter escrito durante os 28 anos de actividade jornalística ininterrupta entre 1977 e 2005, e nos sete anos de escritas intermitentes que se seguiram até ao ano que a minha carteira profissional de jornalista não foi renovada. Tentando ser fiel à memória de 1990, a tarefa de hoje não é mais fácil embora seja essencialmente tirar o que está a mais, por desnecessário, no registo de há 23 anos.

A propósito de fotografias

Lisboa, capital e tudo / 2011

Estas notas pessoais têm vindo a ganhar uma espécie de estilo próprio: o texto principal, com o respectivo título, é, em regra, autónomo relativamente ao contexto social da data do dia e à própria fotografia, sempre apresentada, por defeito, naquele formato panorâmico, o que significa que apenas mostramos uma terça parte - a central - de uma clássica fotografia rectangular em que a largura é maior do que a altura. A opção, a meu ver feliz, foi desenhada por quem gere graficamente este meu espaço, no caso o meu filho Tiago. A esmagadora maioria das fotografias são de minha autoria e também elas podem ser apontamentos pessoais mas não identificam pessoas que não possam ser identificadas, como numa foto hoje publicada num espaço informativo a propósito dos 600 mil portugueses que sofrem de incontinência urinária, foto onde são facilmente identificadas pessoas que, muito provavelmente, não sofrem de tal doença nem deviam, mesmo que a sofressem, ser associados a ela. 

Cabo Seco, nominho Verde

Cais das Colunas / Lisboa

Em vésperas de voltar a Cabo Verde, estou a reler o que, há 23 anos, escrevi como reportagem de uma visita ao arquipélago. O trabalho materializou-se numa entrevista ao então presidente da República Aristídes Pereira e numa série de crónicas publicadas, em 1990, no Jornal de Notícias sob o título genérico de "Cabo Verde, nominho Seco". Tirando um erro ortográfico imperdoável, que vou classificar de gralha esperançado que possa ter sido da responsabilidades do revisor, o que é improvável, tirando essa gralha digo, modéstia à parte, que continuo a ter orgulho nesses meus retratos de Cabo Verde hoje desactualizados - espero - mas fieis ao tempo que testemunham, marcado politicamente pela passagem de um regime de partido único para um regime multipartidário. Nesta minha segunda visita só deverei deslocar-me à ilha do Sal. Há 23 anos estive no Sal mas também em São Vicente, em Santiago e no Maio. Na cidade da Praia (Ilha de Santiago) passei quase ao largo da Cidade Velha, o que considero imperdoável. Apesar de continuar a gostar do trabalho jornalístico dessa reportagem em Cabo Verde  tenho de reconhecer que ainda não estava bem preparado para o desenvolver - faltava-me a visão global que podia ter feito a diferença e que entretanto julgo ter adquirido. Mas agora é tarde, não regresso a Cabo Verde como jornalista, embora a profissão não contemple a condição de ex.

Má sorte não ter nascido mais tarde

Cenários / CCB Lisboa

A pedido de uma jornalista que está a elaborar um trabalho sobre os 75 anos do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) , para ser publicado numa revista ligada à Universidade de Lisboa, lancei um olhar sobre a minha longa passagem pelo TEUC, que começou no dia 4 de novembro de 1971 e talvez ainda não tenha acabado, onde confessei ter aprendido mais nas deslocações à Gulbenkian para angariar subsídios ou na organização das semanas internacionais de teatro universitário do que na Faculdade de Direito, cuja licenciatura nunca terminei. Não o disse, mas poderia ter dito - má sorte não ter nascido mais tarde e seria doutor por equivalência, satisfazendo assim um velho sonho dos meus pais.

A fábula da formiga e da cigarra

Sementeira de filtros

Esta nota foi escrita de véspera e tem embargo até ser lida. Quem, como eu, trabalhou tantos anos num jornal diário sabe que hoje é ontem e que o amanhã é que é o hoje. Temos sempre 24 horas de avanço. Parece muito mas é pouco, muito pouco, por exemplo para evitar um esbulho, obtido à falsa fé, sobre uma conta entesourada num banco cipriota. A margem de segurança de quem manda na banca é sempre muito maior e, se for mesmo preciso, encerra-se os bancos durante uma semana, um mês, durante o tempo que for necessário. Razão tinham as cigarras que passavam a vida a cantar e, por inerência, a gastar à grande e à patriota ao contrário das formiguinhas que labutavam desde crianças para um dia entregarem de mão beijada essas poupanças. Moral da história - temos de mudar, com urgência, a fábula da formiga e da cigarra.

Um novo "monólogo do candidato"

Monte do Jerumelo, Penela / Foto JR 2013

Sempre que começa a azáfama dos preparativos para eleições autárquicas lembro-me do meu “Monólogo do Candidato”, uma ficcionada reflexão de um candidato em campanha quando, ao fim de um dia cheio de iniciativas eleitorais e eleitoralistas, faz um balanço da jornada antes de adormecer num quarto de hotel igual ao da véspera. Escrevi-o quando fui candidato à Assembleia de Freguesia de Rio Tinto, na esperança de o representar, durante pelo menos uma semana de campanha e como ação de campanha, no Teatro de Bolso do Dramático de Rio Tinto. Pensava, com esta iniciativa, conquistar algum espaço mediático, pelo relativo destaque assim obtido num universo de mais de doze mil candidaturas. Poucos candidatos se assumiriam como autores actores e utilizariam uma representação teatral como centro da própria campanha. A ideia teve receptividade na equipa e na coligação, mas à última hora tornou-se impossível de concretizar alegamente por impossibilidade de usar as instalações do Dramático, atempadamente apalavradas para o efeito. Um desacontecimento que deveria ter previsto e que foi, tenho a certeza, muito mais do que a alegada recusa do Dramático, recusa que nunca quis confirmar para que a lasssidão política que se seguiu pudesse acontecer.

Escrever sem depender da escrita

Trabalho negro

Segundo o jornal inglês "The Telegraph", foi descoberta num armário velho uma carta de Óscar Wilde, presumivelmente escrita à volta de 1890, com conselhos a um jovem candidato a escritor. Para Wilde, então já uma referência das letras, "o melhor trabalho na literatura é sempre feito por aqueles que não dependem dela para ganhar o pão de cada dia". Isto explica que muitos escritores tenham recorrido ao chamado trabalho negro, onde se inclui o trabalho de ghostwriting, como forma de sobrevivência. O mesmo acontece com muitos pintores e com outros artistas plásticos que desenvolvem trabalhos paralelos, em publicidade, em decoração e noutras actividades, para conseguirem rendimentos mínimos necessários. Já não há Mecenas.

Palavras que cabem na concha da mão

Banjo do meu pai / Foto JR

Já começo a esquecer os anos da guerrilha jornalística, temperada no vício das palavras coladas e cortadas de telegramas e comunicados velhos, e a sentir-me de regresso às palavras mais simples e pequeninas que cabem na concha da mão. À permanente e sentida necessidade de erguer  um muro entre a lucidez e a loucura lúcida sucede a urgência em destruir esse mesmo muro cuja existência nunca foi realmente provada como sendo útil. Quero voltar aos textos tempestuosos que crescem com palavras que cheiram bem, que sabem bem, que soam bem. Agora, leio mais poesia e gosto de parar na minúcia e na sonoridade das palavras com que os poetas nos desvendam imensos sentimentos tantas vezes por identificar.

Lembrando o contador de histórias Edward Bloom

Por este Douro acima / Foto JR 2010

Não foi para celebrar o aniversário do meu filho mais velho, que completa hoje 37 anos de idade, é biólogo marinho de formação académica, licenciado pela Universidade dos Açores, e skipper de formação profissional, graduado pela United Kingdom Sailing Academy (UKSA), que a UNESCO instituiu este dia 22 de Março Dia Mundial da Água. Não foi para celebrar este aniversário mas é uma coincidência feliz que quero salientar nesta nota pessoal deste dia, sem me armar no grande peixe Edward Bloom, um contador de histórias criado pelo escritor Daniel Wallace e recriado por Tim Burton num filme, para mim muito marcante, em que Albert Finney assume o papel do velho pai, um vendedor do Sul dos Estados Unidos da América que gostava de contar histórias fantásticas.

Celebrar a aventura desconhecida da morte

O órgão falso da Casa da Música do Porto, à direita / 2013

Hoje assisti ao ensaio aberto ao público da Missa de Requiem que Giuseppe Verdi escreveu em 1874 para assinalar o primeiro aniversário da morte de Alessandro Manzoni, poeta italiano que Verdi admirava. O ensaio desta missa que a Orquestra Sinfónica do Porto com o Coro da Casa da Música estreia amanhã na própria Casa da Música sob a direcção musical de Michail Jurowski, não contou com a presença da soprano Karina A. Flores, por estar indisposta fisicamente. Mesmo sem a soprano, esta missa de requiem de Verdi tem momentos tão comoventes e tão arrebatadores que apeteceria embarcar na aventura desconhecida da morte  se houvesse a certeza de ser recordado assim. Uma boa questão para Alessandro Manzoni. Viva Verdi.

Explicação de alguns desacontecimentos

Sem ângulos mortos / Lisboa e Avenida da Liberdade

Mortes à parte, sempre estive muito mais próximo de Moritz Stiefel, personagem (que nunca representei) de um adolescente inseguro que se suicida em “O Despertar da Primavera”, de Frank Wedekind, do que do soldado Woyzeck, o anti-herói da peça de Georg Buchner, cujo papel assumi, sob a direção de Julio Castronuovo, no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, em 1972, tão intensamente que ainda hoje, quarenta anos depois, continuo a identificar-me como Roldeck. Buchner, que morreu antes de finalizar Woyzeck, considerada a sua obra prima, não deixou indicações sobre o fim deste personagem, cujo improvável suicídio é sugerido em algumas encenações, apesar do verdadeiro soldado que inspirou a peça ter sido condenado à morte, por decapitação, como pena pelo assassínio da companheira.

Não param de tentar vender-nos burros

Lisboa, um recanto do Parque Mayer / 2013

Hoje estive no Parque Mayer, 40 anos depois de ali ter actuado, integrado no elenco do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) que em 1973 levou à cena "O Asno", peça de José Ruibal, encenada por Fernando Gusmão. Eu representava o papel de um adolescente que vendia azeitonas pelas ruas da cidade e que acabou mobilizado para uma guerra (de subjugação colonial) onde viria a morrer. Se a memória não me falha,  o TEUC, nessa deslocação a Lisboa, muito pouco aplaudida pela crítica que não valorizou minimamente as contingências da acção de um grupo de teatro universitário a viver num regime político sem liberdade de expressão, actuou no Teatro Variedades, um teatro que atravessou quase todo o século XX e que ainda resiste, pelo menos como memória arquitectónica e como memória de um teatro que durante dezenas de anos tentou divertir o público, quase sempre enfrentando a Censura aos textos e às próprias encenações, com as dificuldades causadas pela perda de muito dinheiro se os espectáculos eram proibidos. Voltando ao Asno, recordo que a cabeça de cartaz desta peça de José Ruibal era um burro electrónico que um gigantesco Tio Sam tentava impingir aos portugueses. Quarenta anos depois, ainda há quem continua a querer vender-nos alguns burros.

Convite para uma venda de garagem

Quarto com vista para o Castelo e uma nesga de Tejo

Hoje recebi um convite daqueles que pululam na Internet, via Facebook, um convite de um dos muitos nomes que integram a minha lista de amigos. O convite é para uma venda de garagem e tem por objectivo dar a conhecer a iniciativa a potenciais interessados e, tanto quanto possível, projectar o número de pessoas que poderão comparecer com base nas declarações de intenção nesse sentido. Sem poder garantir que tal venha a acontecer, eu já disse que sim, que sim senhor, que no dia e na hora do evento lá estarei, mais para comprar do que para vender. O que aconteceu pela primeira vez pois, até agora, ignorava olimpicamente convites desta natureza, mesmo aqueles em que estaria interessado. Muitos destes convites são provenientes de pessoas que aceitei como amigos no Facebook quase por inércia. Por termos amigos em comum, por termos passado, no passado, pelos mesmos lugares. Eu sei lá. Hoje porém detive-me na imagem da amiga que me convidou para a venda de garagem. O nome dela não me dizia, nem diz, nada, mas a fotografia sim. É alguém do meu tempo de Coimbra, mas é também alguém que só hoje vi com olhos de ver e que - senti-o - deveria ter conhecido melhor há quarenta anos. Estranho ter sentido isto através de um banal convite para uma venda de garagem na Internet

Aga Khan no Castelo de S. Jorge

Montanha seca nas margens de um rio africano

Lisboa continua a ser palco de grandes iniciativas mundiais - o Prémio de Arquitectura Aga Khan 2013, atribuído de três em três anos, vai ser conhecido este ano em cerimónia marcada para o Castelo de S. Jorge. Os palcos das duas últimas edições foram o Museu de Arte Islâmica de Doha, no Qatar, em 2010,  e as Petronas Towers de Kuala Lumpur, na Malásia, em 2007.  A escolha dos locais que recebem a cerimónia da entrega destes prémios não é determinada ao acaso. Portugal foi este ano o país escolhido por ser  um exemplo de como uma sociedade plural pode abraçar outras culturas, mantendo e preservando a sua, e por ser o país da nacionalidade  de arquitectos reconhecidos e premiados internacionalmente. Uma boa notícia, para variar.

L'enfant et les sortilèges

Pormenor de cartaz para uma ópera de Colette e Ravel

Iniciando o reportório de récem fundada Ópera Estúdio da ESMAE (Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo), o Teatro Helena Sá e Costa, no Porto, recebeu a ópera L'Enfant et les Sortilèges, música de Maurice Ravel para um libreto de Colette, ópera estreada em 1925, na Ópera de Monte Carlo, agora em versão portuense com encenação de António Durães e arranjo musical de Bruno Martins e Patrícia Martins. Com o atrevimento que a minha quase nula educação musical facilita, tenho a ousadia de sonhar com uma nova encenação desta ópera que se mantivesse cenograficamente sempre centrada na perspectiva que uma criança tem do mundo adulto que a rodeia. Debruçando-se bastante mais sobre a autoridade e não apenas um "pouco-pouquinho" como diz o encenador.

Que viaje à volta do computador

Clepsidra, Coimbra

Que viaje à roda do seu computador quem, não estando em Turim, possa viver numa cidade que no Inverno seja comparável a Sampetersburgo — entende-se. Mas hoje, que reconhecemos em Lisboa alma tão mediterrânica como a de qualquer cidade do mediterrâneo, o próprio Almeida Garrett aplacaria no estuário do Tejo, nesse mar da palha, olhando-o do cais das colunas, a inquietude da sua alma de viajante e nem precisaria de ir a Santarém ou de ficar preso a googlar sem fim  para fazer crónica de quanto visse, ouvisse, pensasse e sentisse. Ali, de costas para o Terreiro do Palácio, descobriria outra Joaninha dos olhos verdes, seguramente uma jovem licenciada que todas as manhãs chega de barco à Estação Ferroviária de Sul e Sueste, para entrar antes das nove num escritório da Rua da Prata.

Uma Praça da República em terra batida

Pássaro na e da Fábrica Social

Um velho amigo meu, jornalista português que sempre acalentou o sonho de escrever uma narrativa cuja acção se desenrolasse em Moscovo, partiu sem publicar essa ficção, seguramente literária, a que já tinha dado o nome de "Praça Vermelha, meu amor". Inspirei-me muitas vezes nesse título que ficou por publicar, lembrando-me, por exemplo, de uma crónica que enviei para o JN, no âmbito da cobertura jornalística de uma das Presidências Abertas de Mário Soares, crónica que apresentei com o pouco original título "Alentejo, meu amor". O segredo está nesse vocativo que abre corredores de promessas mesmo quando as praças são em terra batida, como era a da República, em Coimbra, quando cheguei à Universidade e à cidade. Praça da República, meu amor: Largo do Toural, meu amor; Praça do Comércio, meu amor; Praça da Liberdade, meu amor; Largo do Infante, meu amor; Praça de San Marcos, praceta, pracinha. Praças à parte, já escolhi o título da minha primeira ficção narrativa, obra com enormes possibilidades de nunca vir a ser publicada.

Três praças maduras

Instalação no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian em Lisboa

Estar apaixonado por Lisboa, sendo portuense, não é trair a cidade do Porto. É apenas e tão só uma irresistível atração pela luz, por essa luminosidade intensa tão própria das estrelas - que têm luz própria - e que sabem maquilhar-se com a transparência e o perfume da água. Eu não sou de Lisboa mas gosto de Lisboa. E depois Lisboa tem os olhos verdes, como a Joaninha dos olhos verdes, hospedeira num barco de cruzeiro entre Lisboa e Santarèm que, além do mais, era o distrito natal do meu pai. Eu vi primeiro a lisboeta Praça do Comércio, a que o povo nunca deixou de chamar Terreiro do Paço, do que qualquer praça ou avenida no Porto. E a minha segunda praça foi a da República, em Coimbra, e só muito mais tarde pude sentir-se também portuense na Praça da Liberdade, que é aquela que acolhe o Palácio das Cardosas, hoje Hotel Intercontinental do Porto. Três praças maduras.

Um mapa para o meu deserto

Red River´s Skyline, from Army Avenue

O papel dobrado em quatro que me foi entregue no silêncio elegante de uma das mais bem decoradas mezzanines de Lisboa (conforme testemunho de ontem) continha uma mensagem muito estranha - a sua contra senha é "um mapa para o meu deserto" e será extremamente fácil descobrir o momento em que terá de a proferir. Como já revelei, tentei ver quem me entregou o papel, mas quando olhei com olhos de ver já era tarde, a mensageira tinha desaparecido. É bem verdade o que testemunhou a jornalista Rosário Salgueiro numa notável reportagem da série "Mudar de Vida" quando, no episódio dedicado aos ofícios que existem num hotel de cinco estrelas, uma das senhoras que asseguram a limpeza diz que para muitos clientes os funcionários dos hoteis são transparentes, isto é, não existem. Foi assim que eu não vi a senhora que me entregou o papel com "um mapa para o meu deserto".

Contacto num hotel de referência

Portela, chegadas / Lisboa

Sentei-me a uma pequena mesa da mezzanine do primeiro andar, com vista privilegiada para a tapeçaria de Lino António - Olisipo - que capta Lisboa, e comecei a reproduzir em desenho, num dos meus cadernos vermelhos das viagens, da marca moleskine, um pormenor da cidade ali perpetuada. Pouco depois, uma senhora, elegantemente vestida, aproximou-se com um pequeno candeeiro e disse-me que um pouco mais de luz talvez ajudasse. Quase de imediato ligou o candeeiro numa tomada imperceptível e afastou-se. Foi então que vi o papel, dobrado em quatro, com a mensagem que julgo esperar, mas quando quis olhar para ver a mensageira ela já tinha descido as escadas que dão acesso ao piso da entrada.

A riqueza de dispor do tempo

Barco na linha do horizonte

É preciso tempo para fruir bons momentos, sendo também aconselhável ter bons critérios para definir o que se entende por bons momentos. Eu gosto de dizer, citando inconscientemente algum pensador que eu desconheço mas que seguramente já disse o que eu digo, que um homem rico é aquele que pode dispor do seu próprio tempo como quiser e bem lhe apetecer. Há momentos em que posso comportar-me assim, embora durante pouco tempo. Acresce que estes eleitos momentos são muito bem escolhidos. Às vezes basta a oportunidade de poder sentar-me num lugar que tenha vistas privilegiadas sobre algo interessante para, sem censuras nem auto-censuras, poder, mesmo que desajeitadamente, aguarelar num dos meus cadernos vermelhos de apontamentos, que se confundem com um passaporte, o desenho tosco a lápis do que estou a fruir pelo olhar.

Queremos + respeito por Portugal

O fado não se esgotou na Grândola Vila Morena / escultura

Respondendo ao interlocutor que me dirigiu uma pergunta sobre a minha surpresa pela audiência concedida pela Troika à Caritas Portuguesa, devo esclarecer que essa minha nota - sem a mínima adjectivação, reconhecer-se-á - é fruto da indignação que sinto pelo facto de uma entidade estrangeira constituída por funcionários superiores, mesmo que tecnicamente reconhecidos, grupo que visita Portugal amiúde para avaliar como o país está a aplicar os empréstimos que contraiu e que irá pagar com juros elevados, já se julgar com poder para conceder audiências a organizações não governamentais portuguesas e para com elas discutir questões que dizem respeito à governação do país. Queremos um pouco mais de respeito por Portugal, atitude que não agravará o défice nem outras maldades que parecem ofender a sensibilidade daqueles funcionários superiores do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional, nenhum deles eleito pelos portugueses para assumir tais atitudes.

Queremos (a azul) + (a vermelho)

Janela larga da Biblioteca de Serralves

Na primeira rotunda que encontramos quando saímos da Estrada da Circunvalação do Porto em direcção à Estação Ferroviária de Rio Tinto, colocaram hoje, num painel publicitário gigante, um enorme cartaz onde podemos ler a palavra queremos, escrita a azul, seguida do símbolo matemático da adição, + (mais), este impresso a vermelho. A mensagem - queremos + - está, aparentemente, incompleta embora seja plausível que, mais dia menos dia, apareça uma segunda mensagem para lhe completar o sentido. Até lá podemos, todos nós, pormo-nos a adivinhar ou, melhor ainda, a revelar o que cada um de nós já tem mas ainda quer mais. Que podemos querer mais?

Caritas portuguesa e Troika surpreendem

Planeta vermelho / 2013

Pelo menos uma estação de rádio e um canal de televisão citaram hoje o  presidente da Cáritas Portuguesa que revelou ter tido um encontro com os representantes da Troika durante o qual terá pedido uma revisão dos cortes aplicados às prestações sociais em Portugal. Segundo o presidente da Cáritas Portuguesa, os representantes da Troika terão dito que o pedido não poderia ser contemplado, por causa da consolidação orçamental, mas terão acolhido bem as preocupações apresentadas, intenção que o presidente da Cáritas não explicou melhor. O surpreendente desta notícia não é o revelado esforço desta instituição que gere boas vontades: o surpreendente desta notícia é que uma ONG peça audiência aos técnicos superiores do FMI, do BCE e da Comissão Europeia que acompanham a gestão das contas públicas portuguesas e tente interceder a favor da situação dos portugueses no decorrer de uma audiência que foi, também surpreendentemente,  concedida pelos referidos técnicos superiores e sobre a qual o presidente da Cáritas revelou alguns pormenores à Imprensa.

O estrangeiro que fala Português voltou

Enigma arquitectónico / Porto 2013

O estrangeiro que fala Português com sotaque italiano voltou a procurar-me mas não seria para me dizer que o presidente Hugo Chávez tinha morrido. Desta vez foi ao meu encontro na Fábrica Social, no Porto, onde a minha empresa contratou, em regime de coworking, a utilização de um monoposto de trabalho e a domiciliação fiscal, entre outros serviços, mas cruzou-se com um amigo que também me tinha ido procurar em vão e acabou por descobrir que eu não estava. Com aquele sotaque que começa a ser um elemento de identificação, pediu que o meu amigo me informasse que as cópias dos documentos prometidos há dias estão para chegar, o que deverá acontecer na próxima semana e por correio expresso de uma empresa internacional. Com todo o profissionalismo, garantiu. Este secretismo e este suspense é que são um pouco incomodativos.

Panos de velas em papel de jornal

comércio condicionado / Porto 2013

"Veleiro meu das velas de papel // Tecidas com as folhas de um jornal // formato broadsheet original. // Deixei de navegar nesse batel // e sou raro leitor, nada fiel // à tua informação pouco normal,  // tão velha, mas pior, sensacional // por vezes funcionando em cartel". Está na hora de ler livros, não necessariamente em exclusividade, mas ler livros, ensaios, narrativas romanceadas, poesia. Ler, por exemplo, "A Civilização do Espectáculo", de Mário Vargas Llosa, Nobel da Literatura em 2010, um trabalho sobre estas questões do comunicação nos nossos dias, essa armada invencível de jornais, rádios, televisões e afins, que já representei, plasticamente, como veleiros de velas de papel de jornal e de cascos de cascas de nozes.

Numa pele errada e muito comichosa

A refundação de Portugal começou em Guimarães, em 1143

Sinto-me a viver numa pele errada e, além do mais, muito comichosa. No verdadeiro sentido da palavra comichosa, o adjetivo daquele que tem comichão, muito mais do que aquele que se melindra por qualquer coisa, por dá cá esta palha. Precisava de ser amigo do Dr House para lhe perguntar se posso viver descansado com estes sintomas, embora tenha a esperança de estar a ser vítima da minha crónica hipocondria. Por outro lado, reconhecer isto é mau sinal pois reduz as hipóteses de se tratar de uma manifestação de hipocondria aumentando as outras, a de se tratar de algo de errado com a minha pele. Ossos do ofício, deste ofício de escritor fantasma capaz de vestir peles muito comichosas, no sentido figurado da palavra.

Sete palmos de terra e um caixão, em Guimarães

Planisfério Terrestre de Cláudio Ricardo, 1630

Um poema musicado por Chico Buarque em 1965 para a peça de estreia do Teatro da Universidade Católica de São Paulo - Morte e Vida Severina, na dramatização de Roberto Freire para o texto homónimo de João Cabral de Melo Neto - voltou ontem a subir à cena, no Convento das Dominicas, em Guimarães, inserido na apresentação pública do resultado de uma oficina de criação performativa, sob o tema "O consolo de si", que Inês Lago dirigiu e Manuel António Pereira  produziu. O poema - "O Funeral do Lavrador", aquele que diz que "Não é cova grande, é cova medida // e a terra que querias ver dividida" - trouxe-me à memória um outro brasileiro, Josué de Castro, um médico que é mais recordado como  cientista social e como presidente da FAO, a organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, autor nesse ano de 1965 de um ensaio que muito influenciou a minha formação política, "Sete palmos de terra e um caixão". O teatro tem destas magias e só por esta memória, misturada com outras, como a da cantiga do Zeca Afonso de homenagem ao pintor José Dias Coelho ("a morte saiu à rua num dia assim"), valeu a pena ter ido a Guimarães ver e ouvir "O consolo de si".

Março marçagão trás segredos no ventrão

Igreja perigosamente inclinada / Coimbra 2013

Este mês de Março está a escrever-se com um eme maiúsculo de mistério, contrariando o novo acordo ortográfico que despromoveu os meses do ano à categoria de palavras que se escrevem com minúscula. Ainda mal refeito do contacto telefónico que recebi ontem, supostamente em nome do realizador de cinema norte-americano que estará interessado na minha colaboração como escritor fantasma, conforme já tornei público, recebo hoje a visita de um homem que fala um Português correcto mas com um sotaque italianado, se é possível classificá-lo assim, e que se deslocou pessoalmente a minha casa para confirmar a minha identidade e para me dizer que irei receber, muito em breve e por mão própria, cópias autenticadas de vários documentos escritos, de diversa natureza, que devo destruir depois de os ler e sobre os quais terei de manter rigososo sigilo. Disse-me também, não dando hipótese a qualquer resposta da minha parte, que ele não sabe o teor de tais documentos mas que eu descobrirei o interesse deles logo que os leia.

Guião para um filme sobre Lisboa Mediterrânica

Lisboa numa aguarela para um calendário da Companhia União Fabril (CUF)

Hoje recebi um telefonema de alguém que se disse assessor de um conhecido realizador de cinema norte-americano eventualmente interessado no meu trabalho na área da escrita. Pretenderá realizar um filme sobre Lisboa, apresentada como uma cidade mediterrânica que emigrou para o Atlântico, e gostaria de falar comigo tendo em vista a minha possível colaboração na equipa que irá idealizar e escrever o guião que servirá de base ao filme. O projecto está ainda numa fase inicial mas pelo prestígio, no mundo cinematográfico, que as principais pessoas já envolvidas possuem não falta, o que sempre faz falta entre nós, isto é, dinheiro para a concretização do filme. É um desafio aliciante que nem sequer me impede de continuar a asssegurar os serviços dos clientes que tenho em carteira. Março, marçagão, de manhã Inverno à tarde Verão.